Num mundo perfeito, eu tinha um emprego decente.
Assim com um ordenado jeitoso, com uma chefe fixolas, uma equipa simpática, com projectos desafiantes.
Num mundo perfeito, eu não tinha que pagar 159 euros de Segurança Social todos os meses, e tinha direito a subsidio de férias e a de Natal.
E quando recebesse o subsidio de férias, aproveitava para voltar à minha cidade preferida de NY, ou ia visitar o meu pai a Angola. Aproveitava e também ia visitar os meus primos à Namibia, e fazia uma daqueles safaris por África, com que sempre sonhei.
Com o subsidio de Natal, mesmo depois de mimar todos aqueles que merecem com uma prenda bem supimta, poupava um bocadinho para finalmente fazer obras na minha casa-de-banho, que está tanto a precisar. Ou pelo menos comprar uma torneira nova para a banheira, que é o caso assim mais urgente.
E colocava finalmente aquele papel de parede que eu quero ter tanto na parede da sala. E na parede do quarto.
Num mundo perfeito, eu conseguia ter tempo para fazer mais bijutarias. E para ter mais aulas de dança, que gosto tanto.
Num mundo perfeito, podia ir jantar fora sempre que me desse na real gana.
Num mundo perfeito podia entrar numa loja de roupa, e comprar aquele vestido que eu ando a namorar à tanto tempo.
Ou numa sapataria, e comprar aquelas sandálias que eu gosto.
Podia perder-me pelo Etsy, e comprar malas, e acessórios,
Num mundo perfeito, já tinha finalmente comparado uma máquina fotográfica.
E num mundo extra perfeito, dedicava-me quase a tempo inteiro a fazer bolos e sobremesas, e todas aquelas receitas que eu gosto tanto.
Mas não vivo num mundo perfeito.
Neste mundo imperfeito onde eu vivo, apenas sei que posso contar com o aqui e o agora.
Não tenho um emprego estável, não tenho subsidio de férias nem de Natal. Nem seguro de saúde.
Mas tenho uma chefe fixolas, uma equipa supimpa e trabalhos aliciantes (ás vezes não são assim tão aliciantes, mas o saldo é positivo), e é isso que me faz levantar todos os dias com um até grande sorriso.
A segurança social "rouba-me" 159 euros todos os meses. Para eu ter direito a um sistema de saúde da treta. E para não ter direito a subsidio de desemprego caso "algo corra mal". E para quase de certeza absoluta não ter direito a uma reforma decente daqui a 35 anos quando for altura de me reformar. Já por nem falar que nem filhos posso pensar em ter... porque nem direito a baixa de maternidade eu tenho.
Neste mundo imperfeito, são poucos os dias que posso ir jantar fora. E mais raros os dias em que vou almoçar com os meus colegas. Trazer almoço de casa fica bem mais barato. E até mais saudável.
Há dois anos que não tenho máquina fotográfica. E ainda vão faltar muitos mais ate voltar a ter uma.
Neste mundo real, a casa-de-banho continua por arranjar, a torneira vai ter que continuar remendada e as paredes despidas, há espera de papel.
Viajar ou ter férias é uma realidade tal longínqua como Marte. Ou até um pouco mais além disso.
O mundo perfeito/sonhado versus o mundo real.
Dizem que somos aquilos fazemos, e não aquilo que temos.
Eu faço muito. Mas tenho muito pouco.
E este não é, decididamente, o sonho com que sonhei que iria ser a minha vida.
(e estou a ficar cansada... muito cansada...)