Tenho a sorte de ter uma famelga relativamente grande.
Vários tios de ambos os lados, vários primos, e malta que até se dá bem.
E tenho a grande grande sorte de ainda ter todos os meus avós vivos. E de até ter conhecido 4 bisavós. Isso sim, foi um grande privilégio.
No entanto, tal com eu já estou a caminho dos 30, também os meus avós estão a caminho dos 80. Uns com mais saúde que outros.
E que custa, claro.
Neste preciso momento, tenho o meu avô paterno a morrer.
De dia para dia tem mais problemas de coração, menos equilíbrio, menos acção, menos independência. Todos os dias que passam deixa de ser um bocadinho menos o meu avô Hermes.
E chegou aquela altura em que a segunda geração tem que se olhar no espelho, arranjar coragem, e tomar decisões.
Muda-lo de casa, ir para um lar, a minha avó Maria também não está bem, arranjar alguém para tratar deles, o que fazer?
Mas claro, é nesta altura que afinal a famelga até não se dá assim tão bem, afinal estão todos ocupados, tu és mais filho que eu, eu só sou a nora, tu é que és o filho. E toca de empurrar a tomada de decisões de um lado para o outro, e se eu fechar os olhos até parece que está tudo bem.
O meu avô está a morrer, e ninguém quer encarar a realidade.
Chamem-me fria, podem dizer que eu não tenho coração, podem dizer que eu tenho mau feitio, podem-me chamar chata, podem falar mal de mim o que quiserem, mas neste momento o importante é ele, e custa-me ver que ninguém se quer mexer.
E um dia destes eu chateio-me a sério, e começo a dizer uma verdades muito bem ditas.
E depois a famelga que é tão fixe se calhar já não vai ficar assim tão fixolas...
23 de janeiro de 2009
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