11 de março de 2011

da geração à rasca, ou a ironia das ironias

Amanhã vou estar com toda a minha alma, no meio da Av. da Liberdade, a gritar bem alto contra as injustiças que esta geração denominada "à rasca" está a passar. Eu que tirei um licenciatura já há 10 anos numa faculdade privada, paga pelos pais é verdade, mas que em 4 anos numa faltei a uma única aula, nunca chumbei a uma única cadeira, numa precisei de ir a oral, e até acabei com a média simpática de 15 valores.

Eu que trabalho há quase 10 anos, e só tive uma única vez um contracto de trabalho. Eu que nunca baixei os braços e já fiz de tudo: dar 15h de formação por dia; ensinar reciclagem a miúdos aos fim-de-semanas em centro comerciais; paginar revistas e jornais; fazer anúncios ridículos para a televisão onde se vendem toques poliofónicos para os telemóveis; vender internet para telemóveis num callcenter, desenhar sacos de plástico e de papel; desenhar e organizar eventos para 250 pessoas; desenhar a decoração para lojas de tintas; desenhar blogs; fazer logótipos, convites de casamento, catálogos de moda, cartazes para eventos farmacêuticos; fazer bolos para fora; vendi bijutaria em feiras... you name it, i have done it!
E agora, estou numa "grande" empresa à quase 3 anos, onde tenho um posto de trabalho, um horário de trabalho e uma chefia. Eu que até desempenho algumas funções de chefia. Eu que até dou formação dentro da empresa.
Eu que estou à 3 anos a recibos verdes e que nunca recebi um aumento desde o dia em que entrei. Eu que fazendo bem as contas, depois de pagar impostos e segurança social, fico com pouco mais do que o equivalente ao ordenado mínimo nacional.

Já fui despedida porque tinha demasiadas habilitações, já fui despedida porque o chefe achava que se dava mal com pessoas com o signo Leão e Sagitário, e imaginem lá qual era o meu signo e o meu ascendente? Já fui despedida porque era preciso fazer cortes e eu era a designer que ganhava mais. E no dia seguinte contrataram dois miúdos acabadinhos de sair da faculdade a recibos verdes, claro...

Eu, que em 99% dos trabalhos que fiz, foram sempre a recibos-verdes.
Falsos recibos-verdes.
E porque é que me sujeitei a isso, podem perguntar? Porque nunca consegui arranjar algo melhor, e porque sempre me fizeram promessas que era uma situação temporária. Um temporário que vira definitivo com demasiada facilidade. Eu que nunca soube o que era um subsidio de férias, um subsidio de Natal, um subsidio de alimentação... subsidio de desemprego, o que é isso mesmo?


Amanhã, a minha alma vai estar no meio da Av. da Liberdade a tentar lutar por um futuro melhor, mas na realidade, amanhã vou estar com todo o meu corpo numa sala de formação, mesmo ao lado da Av. da Liberdade, a dar aulas das 10h ás 18h da tarde. A recibos-verdes, claro.

Porquê?

Porque preciso de dinheiro.
Porque o emprego que tenho a tempo inteiro não me permite sobreviver.
Porque mesmo cortanto por todos os lados, estou com a corda a apertar muito no pescoço.
Porque há quatro anos atrás, com 28 anos, cometi a loucura de querer sair de casa dos pais e comprar uma casa.
E agora, com quase 32 anos, gostava de avançar com a minha vida e fazer aquelas coisas de adultos como constituir família, e não posso nem sequer sonhar com isso, porque não tenho condições nometárias.
Tanto que já aluguei um quarto na malfadada casa para ver se me aguentava... Dai precisar de um segundo emprego, que dura aos sábados o dia todo, a ver se com isso a coisa equilibra.

Muito se escreve sobre esta geração "à rasca" que no fundo não quer é trabalhar, e quer é receber os direitos de mão beijada sem ter as obrigações.
Infelizmente conheço inúmeros casos semelhantes ao meu. Que lutam até mais não poderem, mas depois alguém os mata na praia. Porque não lhes dão um simples contracto de trabalho.

Amanhã gostava de ir à luta por um contracto, mas nem isso me posso dar ao luxo. Porque vou estar a trabalhar precáriamente.

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