14 de março de 2012
da falta de valores
3 histórias que nada têm haver, mas que tudo têm em comum:
1.
A minha avó Maria está a ficar velhota. De dia para dia os anos começam a pesar-lhe verdadeiramente, as quatro hérnias que tem nas costas não a ajudam nada na sua movimentação diária, o ligeiro Parkison que já afecta só veio piorar as coisas, e desde que o marido de 53 anos de casamento faleceu já faz 3 anos, ela nunca mais foi a mesma, e a alegria que a caracterizava à muito que já não está tão viva quanto antes.
Chegou verdadeiramente a hora de tomar a decisão se ela continuava a trabalhar umas horinhas como costureira numa associação (mais para se enterter do que outra coisa qualquer), ou se ficava em casa. Ela negava, dizia que estava óptima (teimosa que só visto), mas era mais que notório o seu desgaste.
Até que a semana passada o impensável aconteceu: a minha avó Maria ia a andar devagarinho na rua, deu-lhe qualquer coisa que ainda hoje estamos para perceber bem o que foi, e caiu literalmente redonda no chão. Ainda consegui recuperar, mas no espaço de 200m, caiu quatro vezes. E nas quatro vezes teve que se levantar sozinha, porque embora passasem carros, táxis, pessoas, ninguem se dignou a ajudar uma senhora de idade que estava caida no chão. Só depois de ela começar a chamar alto por alguém, é que um taxista de uma praça de táxis próxima se mexeu e abandonou o seu árduo posto de trabalho e a ajudou. Escusado será dizer que neste momento a minha avó tem medo de andar sózinha na rua, e desde a semana passada nunca mais foi trabalhar. Porque ninguem a ajudou e ela sente-se desamparada.
2.
Sábado à noite fui com um grupo de amigos ver um espectáculo de comédia que decorreu no Tivoli. Era um espectáculo grátis, patrocinado por uma grande empresa farmaceutica, e em que ainda faziam um donativo para a Liga Portuguesa contra o Cancro.
No final da hora e meia de espectáculo (Pedro Tochas no seu melhor!), quando estavan todos os 1000 espectadores a sairem do Tivoli, estava um sem-abrigo a tentar vender a revista Cais na multidão. E das 1000 pessoas que passaram, e que tinham acabado de ver um espectáculo de comédia grátis, e que ainda contribuiram para a Liga Portuguesa Contra o Cancro, apenas um casal de jovens parou e comprou a revista. Uma única revista vendida num universo de 1000 pessoas.
3.
No último mês, mudei de lado da barreira e estive eu a tirar um curso sobre como fazer sites. Sim, é o que eu tenho feito nos últimos anos no meu emprego a tempo inteiro, mas faltava-me organizar as bases sobre HTML e CSS e um programinha que faz milagres que é o Dreamweaver, e como a empresa até patrocina formação, bora lá tirar o curso.
E das 5 pessoas que estavam a tirar o curso, eu era verdadeiramente aquela que tinha mais noção do mundo da internet que existe lá fora. Os outros quatro eram dois estudantes de artes que tinham acabado de sair da faculdade, e como lá ninguem ensina ninguém a mexer num computador, bora lá tirar um curso de como fazer sites.
Os outros dois eram miudos de outras áreas quaisquer, em que lhes disseram que fazer sites dava dinheiro/era giro, por isso bora lá tirar um cursinho.
E ao final de 15h, em que eu consegui apanhar a matéria porque afinal até já sei bem mais do que aquilo que eu própria pensava, os restantes quatro apanhavam completamente do ar, mas no entanto estavam com os olhinhos a brilhar porque o formador lhes dizia que ele próprio levava €3000 por fazer um site (como se no mercado de hoje em dia isso fosse possível, mas tá bem...).
No final do curso, sairam quatro alminhas a pensar que sabiam fazer sites sem terem uma única noção de design ou de usabilidade, sem saberem bem o que é um servidor, um dominio ou um backoffice. Principalmente o rapaz, que já falava que tinha um cliente para um restaurante de marisco, e que lhe ia cobrar pelos menos €500 por cada página. E que seria o cliente que lhe iria dar o PSD já com o design todo feito (sim sim, um cliente saber o que quer e enviar qualquer coisa de jeito, que anedota), e isto vindo de um miudo que depois de 15h de um curso de HTLM e CSS, ainda não sabia criar um ficheiro de CSS e não sabia bem a diferença entre uma Class e um ID (para quem não percebe, é o equivalente a ele no final de um curso de culinária dizer que vai abrir um restaurante gourmet de 5 estrelas Michellin, mas no entanto ainda não sabe como se liga o forno ou se estrela um ovo...).
O mundo está perdido.
Existe uma falta de valores assustadora. Todos querem tudo, aqui e agora, neste preciso instante. Já ninguem olha para o lado, já ninguem se preocupa com o próximo. Já ninguem trabalha para alcançar algo, acham que tudo lhes cai do céu e que com os minimos olimpicos vão ter direito a fama e fortuna.
Mais que uma crise económica, existe uma crise de valores.
E eu não sei qual das duas é verdadeiramente pior.
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